quinta-feira, 7 de abril de 2016

Tudo como o previsto

Por vezes vejo-me obrigado a levar o Aguiar a sair. O Aguiar é um daqueles que jogava comigo ao Monopólio e que, tal como eu previa, não chegou a lado nenhum. É bastante penoso levar o Aguiar onde quer que seja, mas se não for eu a fazê-lo ninguém o faz e por vezes convém-me, como Ministro, fingir que tenho coração e me preocupo com os desfavorecidos. O Aguiar aplica-se muito nestes nossos encontros, afinal não é todos os dias que tem oportunidade de privar com um homem do poder e eu então faço o sacrifício. Levo o Aguiar até um desses sítios onde se dança e enquanto eu me sento lá atrás a beber um gin tónico sem merdas a flutuar, solto-o lá dentro. O Aguiar aproxima-se então de uma de uma morena na pista de dança, todo ele sorrisos, lança os bracinhos para o ar, para mostrar a sua energia, à terceira ou quarta música já faz uns passos mais ousados, uma pirueta até, depois bate palmas a acompanhar o ritmo da música, frenético, e por fim, quando acha que a batalha está ganha, decide-se a meter conversa e sussurra-lhe umas palavras ao ouvido. A morena que nem sequer o tinha visto, olha para ele pela primeira vez, faz uma careta alarmada e afasta-se rapidamente. Tudo como o previsto, portanto.

É uma maçada esta coisa dos mercados a funcionar livremente. Enquanto o Aguiar se esforça sem sucesso, o Ministro não tem que fazer rigorosamente nada. Basta sentar-me lá atrás a beber o meu Gin Tónico.



quarta-feira, 6 de abril de 2016

Mas o pior de tudo, pior que o contacto directo com o povo, talvez sejam as reuniões temáticas

As reuniões temáticas são, e neste momento é preciso dar um exemplo que esclareça o cidadão leitor que pode estar confuso a pensar que são reuniões marcadas para um clube de férias organizadas num país tropical, com pensão completa e pulseirinha, em que o Senhor Ministro vestido de branco e descalço, bamboleia  o seu corpo com os seus congéneres ao som d'a Garota de Ipanema enquanto fumam charutos cubanos e bebem uma margarita, e é preciso explicar que não, que as reuniões temáticas não são nada disso, as reuniões temáticas são uma coisa séria e mais comum do que se possa pensar, são por exemplo as reuniões com o Director Geral da Pecuária e Pastorícia do Alto Alentejo, um homem de cabelo branco encaracolado e olhos bovinos que lhe imprimem uma certa aparência de borrego, que se apresenta com umas botas caneleiras por fora das calças e uma samarra com gola de pelo de raposa, numa caricatura fiel do pastor acabado de sair do curral.

Claro que nesses momentos o Ministro fica muito apreensivo, de olhos postos na porta, desconcentrado, à espera do momento em que se junta a nós, na mesa de trabalho, um rebanho de ovelhas.



terça-feira, 5 de abril de 2016

O que vê da sua grande secretária de raiz de nogueira, Senhor Ministro?

Postas perante o Ministro dá-se como que um encantamento, os meus colaboradores personificam instantaneamente o jovem inteligente e dinâmico, os olhos brilhantes, os lábios frescos, o instinto matador à flor da pele, o sorriso encantador a fechar o embrulho. Quando se deslocam não andam, escorregam, quase patinam, se lhes fosse possível voariam pelo gabinete, numa azáfama de Secretários de Estado, assessores e secretárias superexcitados, a bater as asinhas,suspensos no ar, presos ao tecto, pousados nas paredes, a aproveitar todos os segundos para provar a sua eficiência, eles com as gravatas à banda, elas com o penteado desfeito numa poupa que se levanta em virtude da rapidez com que se deslocam nos seus saltos altos e saias travadas, tão depressa estão ali como de repente estão aqui, nem se percebe como venceram aquela distância, é impossível prever as suas trajectórias, sim Senhor Ministro, com certeza Senhor Ministro, é para já Senhor Ministro, todos, à vez, aproximando-se com respeito, debruçados sobre mim, uma mão a tocar-me o ombro dando a entender aos demais uma cumplicidade que não existe, criando a aparência de um momento de quietude, quase terno, mas depois o salto provocado pela tensão interna que os leva a fazer, a executar, a concretizar, a serem hiperdinâmicos, provando-me que lhes é impossível estar parados durante muito tempo.

(foooooda-se, parecendo que não isto cansa a cabeça de um gajo!)


segunda-feira, 4 de abril de 2016

Um breve vislumbre sobre a infância da Secretária

Ainda não tinha completado cinco anos e já a avó Isaura me confiava o pequeno porta-moedas com fecho de prata que me deixava as mãos a cheirar a verdete. De cabelo aprumado, meias de renda de algodão branco que nasciam como que por magia das 5 agulhas que a avó manejava com mestria e sapatos irrepreensivelmente engraxados, saía da Travessa das Isabelinhas, sempre de passo apressado, fazia a Rua das Madres até ao n.º 4 da Travessa das Inglesinhas. Ali chegada cumprimentava o senhor Casimiro e o papagaio Pascoal, que lhe tinha trazido de Angola um compadre que agora vivia na Graça, e pedia o costumeiro avio, um pão de Mafra e uma garrafa de leite. Ao sábado também comprava manteiga fresca. 

Nunca nas dezenas, se não centenas, de recados que fiz a pedido da avó Isaura me enganei ou deixei que enganassem no troco, nem mesmo quando ainda não sabia ler. Já na altura tinha consciência da importância que tem saber cumprir ordens com diligência.

Um breve vislumbre sobre a infância do Ministro

Já com cinco anos fazia milagres a jogar ao Monopólio, o dado a rolar, o meu capital a multiplicar-se continuamente, a Rua do Ouro, a Rua Augusta, a Avenida de Roma, a Rua Ferreira Borges, tudo meu, hotéis atrás de hotéis, hostels, Guest Houses, já a antecipar o boom do turismo lisboeta, sentado numa ampla mesa de reuniões, uma máquina de calcular de um lado e uma daquelas dos bancos, de contar notas, do outro, enquanto via os meus amigos sentados no chão, a irem parar à prisão, a pagar à Caixa da Comunidade, a serem obrigados a passar a casa de partida sem receberem o respectivo prémio, um após outro a declararem a bancarrota, a transformarem-se nuns pobres indigentes. E a Mariazinha, que já nessa altura prometia, a entrar com uma farda de enfermeira a gritar "deixem passar a Troika" para os resgatar da falência, pobres criaturas arruinadas, e eu que já nessa altura era um liberal a gritar-lhe: "deixem os mercados funcionar, se é para falir é para falir!". E no fim a criada chamava-me à porta a bichanar, com medo de interromper os meus negócios: "Menino Ministro o almoço está na mesa". E eu então levantava-me, arrumava as minhas notas de papel na carteira Louis Vuitton, punha a minha cartola, um objecto de família passado de geração em geração, e os meus amigos, pressentindo o meu poder de liderança, levantavam-se do chão reverentes, para me seguirem até à casa de jantar onde eu me sentava a degustar uns scaloppine saltimbocca e eles se deleitavam a observar-me.

Nunca os convidei para se juntarem a mim. Era evidente pelas suas performances que não me seriam úteis no futuro.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Estava ali a ver o meu colega Passos Coelho enquanto assinava uns papéis

E ocorreu-me que ele devia fazer uma coisa surpreendente, vestir umas calças de cabedal com correntes, pintar o cabelo de castanho caju, usar um brinco com pingentes roxos, aparecer vestido de Darth Vader, fazer uma merda (é a Tourette) qualquer para provar de uma vez por todas que, ao contrário do que alguns esquerdalhas maldosos insinuam, ele é um homem do futuro. 

Vou mandar-lhe um sms.

E enquanto eu dizia coisas importantes e as pessoas que me rodeavam apontavam rápida e disfarçadamente as minhas ideias num caderninho, não fossem elas fugir

Reparei que de cada vez que ela se levantava da mesa lá ao fundo, caramba era impossível não reparar, a outra mulher, a que estava sentada na mesa à minha frente, quase nem se dava por ela, cravava os olhos nos olhos do homem que a acompanhava, para garantir que ele não desviava dali o olhar. E sentia-se ali uma luta dolorosa. O homem a esforçar-se por olhar em frente e os olhos, esses velhacos, não lhe obedeciam e a mulher seguia-lhe a linha do olhar, dele para a outra, da outra para ele, os olhos dela semicerrados, transformados numa fenda.

E eu então, descurando a minha integridade física e até a minha vida, pedi aos seguranças para os acompanharem quando saíram. De certeza que ele hoje vai ter problemas.